Terça-feira, 24 de Janeiro de 2017

Camisas ás riscas

Há 20 anos atrás, aproximadamente, era eu um estagiário numa instituição estatal. Quis o destino que viesse ter à minha caixa de correio um documento que trazia um anexo, uma mensagem de carácter estritamente pessoal. Para perceberem melhor a coisa, passo a explicar: imaginem que recebem um email que não é dirigido a vós, cujo remetente se enganou ao clicar no destinatário.

Dependendo da importância da mensagem, podemos ou não alertar o remetente. Eh pá, olha que te enganaste, este email  a dizer que não podes pagar a prestação do carro este mês, é para o teu banco, mas veio parar a mim por engano. Envia lá isso para o email correcto e já agora vê se me pagas os 100 Euros que te emprestei há um mês. Um abraço deste teu grande amigo que a partir de agora nunca te vai esquecer.

Mas há mensagens que, devido ao seu teor, um gajo não tem coragem de avisar o remetente. Num papel manuscrito que veio parar à minha secretária, uma colega dirigia-se ao seu amante. Dizia numa letra inconfundivelmente feminina, que ansiava pelo próximo encontro, que já não suportava mais o marido, que queria voltar a gozar,  sentir o prazer como nunca tinha sentido...

Nunca soube quem seria o destinatário da missiva. Não sendo eu, não tinha a mínima curiosidade em saber. A cusquice, nunca foi o meu forte. Mas sabia quem era o insuportável marido, um também colega, com duas características  profundamente irritantes: tinha um sorriso cínico (foi então passei a distinguir o sorriso alienado dum cornudo dos outros) e usava camisas ás riscas. 

Ou seja, pelo tipo de personalidade, o gajo merecia ser encornado. Só lamentava que a traidora se dirigisse ao destinatário amante, no singular. Parece que mais satisfação sentiria, se o destinatário fosse mais que um, não apenas um qualquer colega desesperado a tal ponto de ser capaz de comer aquela mulher.

Eu mudei, tinha outros objectivos, deixei de ser conformista e fui à procura de novos voos. Eles não. Continuam a trabalhar no mesmo sítio, no mesmo departamento, onde eu fui estagiário.

Passados 20 anos, reencontro o casal feliz. Ela com aquelas pernas baixinhas, sempre sem meias, musculadas e hidratadas, com aspecto de quem continua a pinar de pé.  Ele com o eterno sorriso cínico e roupa ás riscas, acompanhados de alguém mais novo, com pinta de estudante universitária que, presumo, deva ser a filha, mas que não usa roupa às riscas. Deve sair ao pai.

Publicado por Lynce às 13:31

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10 comentários:
De Chic'Ana a 24 de Janeiro de 2017 às 13:42
Adorei a tua brilhante conclusão! De facto as pessoas não se podem conformar com as situações em que estão inseridas...
Quanto aos destinatários errados, já me aconteceu várias vezes receber coisas por engano, mas nunca com um conteúdo tão sensivel.
Beijinhos
De Lynce a 24 de Janeiro de 2017 às 14:12
São coisas que acontecem...

Um beijo!
De ♥Cat a 24 de Janeiro de 2017 às 14:59
"Deve sair ao pai."
Ouch!
De Lynce a 24 de Janeiro de 2017 às 15:32
hehehe...

:))
De Cidália Ferreira a 24 de Janeiro de 2017 às 20:25
Realmente a vida tem coisas assim. Os anos passam e as pessoas conformam-se.

Eu recebi uma encomenda para o resto da vida e cara alegre.

Beijinhos Jorge, passa lá, lool
De Lynce a 24 de Janeiro de 2017 às 21:42
Quando morreres (daqui a 100 anos) tens um lugarzito, lá em cima...

:)))
De Anónimo a 25 de Janeiro de 2017 às 00:27
Sabes... A mudança dá muito trabalho e é uma coisa difícil. Só falta saber se o amante se mantém. Beijos Serena
De Lynce a 25 de Janeiro de 2017 às 11:08
Pois... ou o amante se mantém e o corno continua sem saber, o que é excelente ou o romance acabou
De Ana Freire a 29 de Janeiro de 2017 às 21:44
Obviamente... sai ao pai!... Para não dar zebra...
Beijos
Ana
De Lynce a 29 de Janeiro de 2017 às 21:46
Anda cá, Aninhas...

:))

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